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         Momento   de    Reflexão

Educação e TViolência
(Frei Betto)

(  . . .  )

        A educação resulta da confluência da família, da religião, da escola e da mídia. Seu papel é interiorizar valores, padrões e normas de comportamentos, e a ótica pela qual se encara a realidade, a vida, a história. Ocorre que hoje, com a mercantilização crescente da mídia, programas dominicais na TV, que levam ao paradoxismo e imbecilização, o interesse em transformar crianças em consumidoras precoces se sobrepõe ao empenho de incutir-lhe ética, amor ao próximo, cidadania e valores espirituais. O resultado são seres humanos agressivos, inseguros quanto às suas referências, medrosos diante do futuro e dependentes – da família, da droga ou de amizades que são cúmplices em veredas obscuras...

        Há pouco, ouvi uma mãe contar que proibira sua filha de participar de uma passeata. No entanto, permite que a menina amanheça em danceterias. Acende o sinal verde para a esfera da evasão e o vermelho para atividades que possam levar à esfera da política – que, como dizia o papa Paulo VI, é “a forma mais perfeita da caridade”, pois a política determina a igualdade ou a desigualdade de direitos e oportunidades numa sociedade.

        O caso dos rapazes que, em Brasília, acenderam a pira de nossos preconceitos e queimaram um índio Pataxó, levanta uma pergunta: O que ouviram, em casa, seus pais comentarem sobre índios, mendingos, negros e desocupados ? Acredito que o modo como a família se refere aos demais segmentos da sociedade influi decisivamente na visão  que os filhos têm de seus semelhantes. Se uma patroa trata sua empregada doméstica como se fosse uma escrava, não deveria ficar surpresa se sua família demonstra nojo frente a pessoas subalternas e tem vergonha de fazer trabalhos domésticos, como lavar, varrer etc. Os pais são sempre modelos para uma criança.

        Um casal comentou comigo que não daria educação religiosa a seus filhos. Deixaria que, na idade adulta, eles escolhessem o que melhor lhes conviesse. Objetei: “Não há neutralidade. Ou vocês educam ou eles serão educados religiosamente pelos programas de TV, que haverão de ensinar-lhes, por outra escala de valores, o que é certo e errado, bem e mal, justo e injusto”.

        Às vezes, casais com filhos na adolescência me perguntam o que fazer para despertar neles um mínimo de sensibilidade religiosa. Reajo: “Se tivessem feito essa pergunta, não agora que seu filho tem 16 anos, mas há dez anos, eu saberia responder”. Pois a indiferença para com a vida espiritual não ocorre na vida de uma pessoa acostumada, desde criança, a rezar com os pais antes das refeições, ler e comentar a Bíblia, celebrar como convém as festas litúrgicas, jejuar do consumismo na Quaresma, vivenciar a Páscoa, comemorar o Natal em torno do Menino Jesus e não do Papai Noel.

        É verdade que a TV é, hoje, uma máquina de incentivo à violência. Porém, não descarreguemos sobre ela toda a culpa por nossas omissões. Uma boa educação familiar reduz o impacto que ela pode ter sobre as crianças. Pesquisa recente revela que, por ano, uma criança assiste, na TV, cerca de 18 mil assassinatos (telejornais, filmes e desenhos). [veja pesquisa brasileira neste sentido na revista “Diálogo”, outubro de 1997, pág. 43ss. – nota do digitador] Se os pais nunca debatem com os filhos o conteúdo dos programas, é possível que eles se tornem mais vulneráveis. Contudo, quem reage coletivamente a programa da TV ? Quem escreve para os patrocinadores dos programas anti-éticos ? Quem deixa de comprar os seus produtos ?

        Muitas vezes, a falta de uma educação melhor dos mais jovens tem como causa principal a omissão dos adultos. Passivos, tornamo-nos cúmplices de tudo o que condenamos nessa cultura hedonista e violenta. Só a consciência de cidadania, a defesa dos direitos humanos e uma efetiva participação na vida social podemos nos salvar de um futuro menos bárbaro.

In: “Diálogo – Revista do Ensino Religioso”Ano II, N°08 (Outubro de 1997), Paulinas, pág.28ss.


  • Nesta mesma revista, cujo tema “Ética e violência – a formação de uma nova consciência”, é possível conferir o artigo acima na íntegra, bem como outros:  “Consumo, logo existo!”(Jung Mo Sung); “Educação e violência: qual o papel da escola?”(Aida M. Monteiro Silva); “Violência não se ensina na escola”(Carmencita de Araújo C. Seffrin); “Educar para a sabedoria”(Manfredo C. Wachs); “A violência nos meios de comunicação e a educação para a cidadania”(Ismar de Oliveira Soares) e muito mais.
  • Verifique, igualmente, as seguintes edições: N°04“Ética e Educação”; N°05“Violência e convivência humana”; N°09“A Educação em Tempos Globais” dentre outros.   Maiores informações: dialogo@paulinas.org.br .