Observação: para retornar à seção anterior, use o botão "voltar" de seu navegador. Responsável pela Página: João (membro de pastorais da Arquidiocese de São Paulo e professor na Rede Pública). No ar desde 1999. Site Prof. João César: http://profjoaocesar.tk Esta página: http://salvemaria.sites.uol.com.br || http://salvemaria.tk "Cantinho de Meditação" (índice de textos) http:salvemaria.sites.uol.com.br/texto.htm Uso livre destas páginas, desde que na íntegra e sempre citando as fontes e endereços. |
Texto-base da Campanha da Fraternidade 2001, gerado a partir de versão “.rtf” divulgada no site da CNBB. Para saber o que é uma Campanha da Fraternidade, clique aqui.
APRESENTAÇÃO Uma vez mais a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) anima, em âmbito nacional, a Campanha da Fraternidade. Essa feliz iniciativa, com 37 anos, vem mobilizando, cada ano, toda a Igreja Católica no Brasil, outras Igrejas e muitas instâncias sociais a favor de vida digna para todos os brasileiros, justiça social, fraternidade e paz. Iniciamos o século XXI e o terceiro milênio, que desejamos, como propunha a CF Ecumênica de 2000, sejam sem exclusões, colocando como tema para a CF a complexa e dramática questão das drogas, em todas as suas variáveis. Trata-se de um mutirão em prol de vida de qualidade, com sentido motivador positivo de realização pessoal, social e transcendente. A escolha do tema relacionado com drogas parte da realidade de um sistema de morte, alimentado por um estilo de vida materialista, que vem se alastrando como furacão, a partir do cultivo, comercialização e consumo das mesmas, que ceifa milhares de vidas e afeta profundamente famílias e amplos setores sociais. Junto com as trágicas conseqüências do uso de drogas, crescem a violência social, a prostituição, os roubos, os assaltos e seqüestros, a corrupção política, a corrosão da dimensão ética do trabalho e a guerra entre traficantes, que mantém exércitos bem armados e bairros dominados. Além dos fiéis de nossa Igreja, convidamos a todos os cidadãos que lutam por um Brasil justo e solidário, para que somem forças para a mobilização nacional contra as drogas, seus mentores e traficantes e todos os que os apóiam; a favor das pessoas vitimadas, exploradas, destruídas, que desejamos redimidas, promovidas e reinseridas na comunidade; e a favor de todos os que se organizam para destruir esse flagelo social que arruina tanta gente, especialmente os jovens. "Este trabalho de reabilitação social também pode constituir um verdadeiro e próprio empenho de evangelização." (EA 61) Agradecemos a todos os que colaboraram para a produção de todo o material de apoio desta CF. Nossa gratidão de pastores a todos os que se envolverem nesta Campanha da Fraternidade, ajudando-a a alcançar seus objetivos, na certeza de estarmos cumprindo o mandamento novo de Jesus: o amor, preferentemente aos mais necessitados. À luz da mensagem de conversão, que perpassa a Quaresma, canalizaremos nossas energias para atender com misericórdia os crucificados na cruz das drogas, na esperança inabalável da luz da ressurreição, que nos dá a certeza de libertação e salvação.
Oração "Vida sim, droga não"
I N T R O D U Ç Ã O A Campanha da Fraternidade A Campanha da Fraternidade (CF) é um momento privilegiado da ação evangelizadora e pastoral da Igreja no Brasil. Iniciada em 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, a CF alcançou dimensão nacional em 1964. A cada ano ela foi mobilizando mais pessoas, grupos e entidades religiosas e civis. No ano 2000, foi celebrada a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica, coordenada pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), com o tema "Fraternidade, Dignidade Humana e Paz" e o lema "Novo Milênio sem exclusões". A Campanha da Fraternidade acontece na Quaresma e, como convém a esse tempo litúrgico, suscita um apelo à conversão para a justiça, o amor, a fraternidade e a paz. Como elemento motivador, ela traz sempre um tema relevante da convivência humana, que interpela a consciência das pessoas e exige conversão profunda e repostas concretas, tanto por parte da Igreja quanto da sociedade. A escolha do lema "Vida sim, drogas não" é, como em todos os anos, resultado de ampla consulta aos que trabalham anualmente com a Campanha. A decisão coube à Presidência da CNBB e à Comissão Episcopal de Pastoral (CEP), em 1999. Na escolha e no tratamento do tema da CF considera-se a fidelidade ao projeto do Reino de Deus, os sinais dos tempos representados pelos desafios das condições de vida do povo brasileiro e o respeito ao período quaresmal. A CF tem sido, ao longo de mais de três décadas, um processo educativo que ajuda a perceber as exigências da Palavra de Deus diante dos problemas concretos da sociedade. Desse modo, têm se conseguido três importantes resultados: a) estimular os agentes de pastoral e os fiéis a estudarem, de modo mais intenso, a Palavra de Deus e aprofundarem as conseqüências práticas da fé; b) comunicar ao público em geral, fora dos ambientes eclesiásticos, a voz profética da Igreja diante de graves questões sociais e sensibilizar a sociedade como um todo para a temática em questão; c) incentivar iniciativas pastorais concretas como resposta aos clamores da realidade analisada e às exigências da Palavra de Deus intensamente refletidas nas comunidades. A Campanha de 2001 Neste ano a Campanha da Fraternidade está voltada para o grave problema das drogas, que vem afetando dramaticamente milhares de pessoas, famílias e muitos setores sociais. O assunto está em seqüência às CFs anteriores, particularmente a de 1997, "Cristo liberta de todas a prisões", a de 1983, "Fraternidade sim, violência não", e a de 2000, que versou sobre a dignidade humana, a paz e projetou um novo milênio sem exclusões. O lema "Vida sim, drogas não" obviamente mantém a relação profunda das CFs anteriores com as estruturas políticas, econômicas e sociais de nosso País. A produção e o tráfico de drogas tornaram-se hoje um grande negócio e, portanto, interferem na política e na cultura de nosso povo. O problema passou a ser estrutural, atingindo um grande número de pessoas, e é, na verdade, mundial. Temos consciência de que ainda é pouco o que sabemos sobre o uso das drogas, intimamente ligado aos padrões culturais de cada sociedade. Em algumas, elas se enquadram num contexto ritual, como entre certos povos indígenas; noutras, são inseridas em procedimentos médicos, como nas sociedades modernas, e, em ambos os casos, seus efeitos nocivos são contrabalançados pelo controle social. Quando, ao contrário, o consumo de drogas escapa ao controle sociocultural tornando-as acessíveis a qualquer pessoa (inclusive a crianças e adolescentes), seus efeitos podem ser mortíferos. É o que está acontecendo hoje, devido a graves rupturas nas instituições sociais, abalos morais, mudanças culturais e a inclusão das drogas no sistema de circulação das mercadorias em geral. Neste texto, serão consideradas drogas:
Isso porque todas elas são substâncias cujo consumo traz sempre algum tipo de dano à pessoa ou à sociedade e, por essa razão, devem ser de alguma forma combatidas ou controladas. Mas faremos as devidas distinções entre elas quando for o caso. Diante dessa realidade, é preciso fazer, como cidadãos conscientes do valor da pessoa humana e da periculosidade das drogas, primeiramente, um grande mutirão de trabalho preventivo. É nosso dever, também, acionar as instâncias competentes para o cerceamento das poderosas forças que produzem e traficam drogas e para a pronta recuperação dos atingidos por elas. Mas, acima de tudo, deve estar o trabalho em favor da dignidade humana a ser preservada, promovida e, quando necessário, resgatada. Seguindo os passos de Jesus e olhando o próximo com o seu olhar, queremos construir um mundo onde o ser humano encontre a felicidade e não precise mais buscar nas drogas um prazer ilusório.
Objetivos da CF-2001 A Campanha da Fraternidade de 2001, em fidelidade ao que acima foi colocado, tem por objetivo geral mobilizar a comunidade eclesial e a sociedade brasileira para enfrentar corajosamente o grave e complexo problema das drogas, que arruina milhares de vidas e afeta profundamente a paz social. Como objetivos específicos, a CF 2001 visa a:
Os subsídios para a CF-2001 e este Texto-base Como nos anos anteriores, há diferentes subsídios para a Campanha: Texto-base, manual, CD e fita cassete, cartaz, folhetos diversos. O Texto-base aqui apresentado é a peça principal porque dá a fundamentação do tema. Sua finalidade é fornecer o conteúdo básico a ser veiculado ao longo da Campanha e depois dela, embasando a reflexão, a oração e as iniciativas. Como é óbvio, a proposta da CF se liga a uma postura mais pastoral do que técnica, mais didática do que científica. O que se pretende é questionar, suscitar debates, provocar atitudes. Como se trata de Texto-base, há necessidade de ser permanentemente atualizado e, sobretudo, lido à luz de novas situações e das diversas realidades locais.
A primeira parte deste texto (VER) traz uma visão global do problema das drogas, que desfaz sonhos de muitas famílias; para isso, situa o complexo sistema das drogas no contexto social, econômico e político. Na segunda parte (JULGAR), o texto busca na ética, no olhar de Deus e no ensino da Igreja a luz que ilumine a prática transformadora dessa situação. A última parte (AGIR) aponta princípios para a ação, exemplificando com experiências concretas de prevenção, intervenção, tratamento e reinserção social das vítimas de drogas.
Alguns esclarecimentos prévios A Igreja quer ver a realidade com o olhar amoroso que reconhece no outro a imagem e semelhança de Deus, e assim deixar-se interpelar pela condição humana com suas alegrias e sofrimentos, desejos e frustrações, realizações e fracassos. Esse olhar nos convoca a atitudes fraternas que se expressam tanto no cuidado pessoal (ver no dependente de drogas uma vítima a ser socorrida, sem prejulgá-lo), quanto na atuação social e política sobre as estruturas de pecado que sustentam o sistema das drogas.
O problema das drogas no mundo atual é complexo e polêmico. Complexo, porque só se pode falar de drogas no plural e porque o problema reside menos nas drogas enquanto substâncias entorpecentes do que em seu uso, suas conseqüências e no sistema que as sustenta. Polêmico, porque são muitos os diagnósticos e, freqüentemente, as propostas para uma política antidrogas conflitam entre si. A análise aqui apresentada mais aponta temas para estudo e reflexão do que conclusões definitivas. Para abordar o tema, trouxemos a contribuição de diferentes disciplinas cujo enfoque é relevante para a pastoral. Para que este Texto-base possa fornecer uma orientação segura a quem o consulte, evitamos endossar teses polêmicas ou que não estejam respaldadas por instituições reconhecidas pela comunidade científica. Recorremos a muitas pessoas peritas no assunto, dentro e fora das instituições católicas. Gratuita e voluntariamente, elas contribuíram com suas críticas e sugestões, prestando sua colaboração por conhecerem a gravidade do problema e por confiarem no papel educativo das Igrejas cristãs. Expressando aqui nosso agradecimento a esses colaboradores anônimos, queremos dizer-lhes que a CNBB espera corresponder à sua confiança, promovendo, nesta Campanha da Fraternidade, uma nova consciência social. Ao fazê-lo, ela estará cumprindo sua missão evangelizadora, que, neste novo milênio, convoca todas as pessoas de boa-vontade a construirmos um mundo de justiça e de paz, livre dos males das drogas. No que diz respeito ao termo "droga", convém desde já assinalar sua ambigüidade. Embora deva-se incluir entre as drogas tanto as substâncias "leves" quanto as "pesadas", as legais e as proibidas por lei, o uso corrente associou a palavra àquelas que são objeto de tráfico ilegal. Ao falarmos de drogas, no plural e sem especificação, queremos nos referir às substâncias capazes de provocar alterações da percepção, do humor e das sensações. Incluem-se, portanto, entre as drogas também o álcool, o tabaco, certos produtos naturais (ex.: cogumelos), inalantes (ex.: cola, éter) e vários medicamentos (ex.: anfetaminas, morfina).
Sonhos e pesadelosSonhos e pesadelos Quem de nós não sonha? E sonhamos durante o sono e melhor ainda quando acordados. Faz parte da natureza humana ter utopias, alimentar esperanças e costurar sonhos que permitam descortinar horizontes novos onde reine o amor, a felicidade, a paz, o equilíbrio ecológico. Os sonhos ajudam a transformar a realidade em que vivemos, animando nossos projetos, planos e esforços para sua realização. No mais profundo de nós está esse impulso que busca uma vida plena, prazerosa, marcada pelo afeto e pelo cuidado mútuo. Esses sonhos estão em nós porque fomos criados para viver em comunhão. A vida bem vivida nada tem de monotonia, ela é música, melodia, uma festa sem fim, sintonia entre diferentes que se equilibram na harmonia e fazem dela uma obra de arte. Harmonia consigo mesma, com as outras pessoas, com a natureza e com Deus. Ao criar a terra e depois o homem e a mulher, Deus "viu que tudo era bom" (Gn 1,31). O Apocalipse fala da recriação de "um novo céu e uma nova terra" (Ap 21, 1). É o nosso grande sonho: a fraternidade cósmica, incluindo toda a criação numa nova, complexa e bela harmonia. Mas quantas vezes nossos sonhos se tornam pesadelos? Sonhos povoados por monstros ao invés de criaturas normais, sonhos nos quais pessoas queridas assumem atitude agressiva, sonhos onde a ordem natural das coisas é subvertida, ficando a pessoa dominada pela sensação de impotência, incapaz de reagir a essas ameaças que fogem ao seu controle e à sua compreensão. O pesadelo é a experiência subjetiva do caos, quando a harmonia é rompida pelo ruído que impede a comunicação. Essa imagem do sonho/pesadelo pode ajudar a entender por que o problema das drogas tem hoje uma nova face. Desde tempos imemoriais o ser humano tem usado substâncias entorpecentes ou estupefacientes com várias finalidades. Como artifícios para lidar com o próprio corpo (contra a insônia, a depressão ou a dor, por exemplo), favorecer a sociabilidade (o álcool para desinibir os convidados no início da festa), ou propiciar experiências religiosas (a ayahuasca usada por certos povos amazônicos). Em alguns casos, elas ajudam a realizar sonhos legítimos, sendo seus efeitos nocivos atenuados pela delimitação imposta pelo procedimento médico, pelo controle social ou pelo ritual. Quando, ao contrário, as drogas tornam-se acessíveis a qualquer pessoa (inclusive crianças e adolescentes), rompe-se o equilíbrio do consumo socialmente controlado, e os danos aumentam e podem ser mortíferos. Nesse caso, as drogas não ajudam a realizar sonhos; antes, transformam a vida em pesadelo. É o que está acontecendo hoje, devido à transformação das drogas em mercadorias disponíveis a qualquer um e impostas por pessoas de interesses espúrios. A realidade das drogas abala muitos sonhos, transformando-os em pesadelos. O fumo, o álcool, os estimulantes, os tóxicos e entorpecentes estão mais perto de nós do que por vezes suspeitamos ou queremos admitir. Há um enorme exército de produtores, agentes financeiros e traficantes comandando o mundo das drogas. É muito dinheiro em jogo. É muita vida desperdiçada. De nada adianta fugir da realidade. Ao contrário, devemos encará-la de frente para conhecer o drama das drogas em toda sua complexidade e assim nos colocarmos em posição adequada para enfrentá-lo e superá-lo.
O complexo sistema das drogasO complexo sistema das drogas Quando se fala em drogas, pensamos saber de que se trata. Temos geralmente, pelo menos, um conhecimento prático devido a algum caso de drogas ocorrido na própria família, na vizinhança ou com amigos. Alguém viciado em cigarro que não consegue sequer dormir direito, outro com a saúde em frangalhos por causa da bebida, alguém sem capacidade para trabalhar por causa da maconha, e ainda outro vivendo na marginalidade por causa da cocaína ou do tráfico. Além disso, muita coisa se sabe por livros, revistas, jornais, rádio e TV. A mídia nos bombardeia com a propaganda de alerta contra os males e perigos das drogas, mas ao mesmo tempo estimula seu uso através de filmes, reportagens e matérias nas quais o consumo de drogas parece comportamento normal a ser imitado por quem queira identificar-se com as personalidades da moda. Não devemos nos ater a essa informação propagandística se queremos entender o mundo das drogas, muito mais complicado do que parece à primeira vista. Precisamos antes de mais nada desconfiar do que já pensamos saber por experiência vivida ou pelos meios de comunicação, para então indagar mais seriamente sobre o tema.
Essa indagação pode começar de um fato cotidiano: muitas pessoas adultas quando têm nas mãos uma garrafa de bebida alcoólica se contentam com alguns goles. Nesse caso, mesmo sendo uma droga perigosa, o álcool não lhes faz tanto mal. Já outras pessoas, se tomam um trago não conseguem mais parar e se embebedam. Ou seja, a mesma substância provoca efeitos diferentes conforme as condições da pessoa que a ingere. O problema da droga deve, portanto, ser visto dentro do contexto sociocultural e das condições físicas e psíquicas que envolvem seu consumo. Deixando de lado os raros casos de quem produz toda droga que consome, vamos abordar o problema situando-o no interior de um complexo sistema de relações entre produtores, intermediários e consumidores de drogas, que chamaremos sistema das drogas.
O elemento mais visível desse sistema é o usuário de alguma droga. Quando a pessoa atinge alto grau de comprometimento no uso da droga, pode ter sua vida praticamente arruinada. Salvo exceções, o usuário não tem acesso à droga se ela não lhe for oferecida (normalmente, vendida) por alguém que age como intermediário entre a produção e o consumo. Este pode ter uma ocupação lícita (quem vende cigarro, bebida ou produtos farmacêuticos) ou ilícita (narcotraficante, farmácia que vende anfetaminas e estimulantes sem prescrição médica, ou quem vende cola de sapateiro a crianças). A relação entre usuário e intermediário forma a metade mais visível do eixo do sistema das drogas e tem sido o alvo mais freqüente da repressão. No caso das drogas ilícitas, esse segmento do eixo engloba desde o grande traficante que controla todo o sistema, até o "avião" que faz a entrega ao usuário. O intermediário, por sua vez, só pode dispor da droga se ela lhe for passada pelo produtor. Este é o que cultiva a planta ou potencializa seu princípio ativo (no caso da coca e dos opiáceos), ou a indústria (farmacêutica, do fumo, do álcool, de solventes). Temos aí a segunda metade do eixo do sistema: a relação entre produtor e intermediário.
As intricadas relações entre essas duas metades de um mesmo eixo, que vai do produtor ao consumidor final, configuram o sistema das drogas. A rigor, seriam vários subsistemas, um para cada tipo de droga, mais ou menos ligados entre si e com outros sistemas (como o crime organizado, o tráfico de armas, a prostituição etc.). No caso das drogas ilícitas, o elemento mais visado desse sistema é o traficante, por ser quem faz a mediação entre o produtor e o consumidor. Não é ele, porém, quem detém a posição mais forte no complexo, e sim o agente financeiro cujo capital põe em movimento todo o sistema, e que, de alguma forma, detém o comando tanto da produção quanto do tráfico ou intermediação comercial. Seria, portanto, ingênuo reduzir o sistema das drogas à sua parte visível, que geralmente é apresentada na mídia na figura dos pequenos produtores (plantadores de coca ou maconha), pequenos traficantes (que fazem a entrega direta) e consumidores presos por estarem drogados ou portando alguma droga (geralmente pessoas pobres). Cabe aqui uma consideração sobre o narcotráfico, cujas redes permeiam todo o planeta, movimentando valores estimados em torno de US$ 400 bilhões por ano. Apesar de sua clandestinidade, seu poder alcança muita gente, tanto na fase de produção e de industrialização, quanto nos inúmeros depósitos para a distribuição. A mídia já fez muitas reportagens sobre o domínio desse comércio, que hoje é um dos setores que oferecem melhores salários a quem nele ingressa. Sua imensa malha integra produtores, agentes financeiros, traficantes e consumidores. Enquanto os poderosos chefes dessa rede dispõem de muitos meios para escapar da repressão policial, inclusive fazendo a "lavagem de dinheiro", que lhe dá a aparência de comércio legal, os pequenos traficantes e os usuários de droga acabam atrás das grades ou mortos pelos becos das favelas. Fecha-se assim o círculo vicioso e maldito. Os excluídos da sociedade de mercado acabam se tornando as pessoas mais expostas à violência do narcotráfico. As chacinas e os conflitos entre gangues nas grandes cidades, a guerra pelo controle do tráfico, as manobras de introdução da droga nas escolas e lugares de lazer, a precariedade explosiva do sistema carcerário trazem estampada nos corpos das vítimas a sua origem e social. Nosso país, nosso estado, nosso município e, provavelmente, até nosso bairro e edifício está conectado a esse vasto sistema das drogas. Ao contrário da imagem corrente do "mundo das drogas" como um mundo à parte, freqüentado apenas por marginais e pessoas desclassificadas, são muitos os fios de conexão entre o sistema das drogas e a sociedade em geral. Essas conexões ficam mais claras quando se levam em conta todas as conseqüências diretas e indiretas do tráfico e do consumo de drogas. Mesmo pessoas que nunca consumiram drogas tornam-se vítimas delas quando são assaltadas por gente drogada ou que rouba para comprar drogas, quando sofrem a violência que cerca as bocas de fumo, quando sofrem acidente de trânsito por causa de motoristas embriagados, quando são governadas por políticos eleitos com dinheiro do narcotráfico e com ele comprometido... E a lista poderia ir longe. O sistema das drogas causa muito mais vítimas do que parece à primeira vista. Não apenas o tóxico-dependente, mas de algum modo, todos somos vítimas de sua ação anti-social. Indicador particularmente grave do esgarçamento do tecido social, é o aumento da violência e da criminalidade, em grande parte por causa da droga. De 1980 a 1996, a taxa de assassinatos dobrou no Brasil, passando de 13 para 25 por ano em cada 100 mil habitantes. Mais impressionante é o fato de que esse índice sobe a 44,8 em cada 100 mil jovens entre 15 e 19 anos de idade e, na mesma faixa etária, chega a 215 mortes no Estado do Rio de Janeiro e a 134 no Estado de São Paulo. Estamos aqui evidentemente diante de um daqueles "pecados sociais que clamam ao céu", resultado do comércio de droga, tráfico de armas, corrupção, desigualdade social... (DGAE - Doc. 61 - CNBB - p. 82) Cabe então a pergunta: se somos todos vítimas, quem seriam os culpados? Já houve um tempo em que o mundo das drogas parecia ser dividido entre "mocinhos" e "bandidos", como se todo o mal pudesse ser de exclusiva responsabilidade de uma única parte. Os países consumidores acusavam os países produtores; estes jogavam a culpa no narcotráfico; já os traficantes alegavam estar atendendo à demanda de consumidores ricos. Essas acusações mútuas não levaram a coisa alguma e hoje sabemos que a melhor atitude diante do sistema das drogas é compartilhar as responsabilidades. Somos co-responsáveis, no mínimo por omissão. Essa responsabilidade compartilhada nos obriga a rever certas atitudes simplistas que reduzem o problema a uma questão individual, fechando os olhos para a complexidade do sistema e limitando-se a propor terapias de recuperação. Nunca é demais lembrar os estragos feitos pelo narcotráfico, sobretudo nas periferias, pensar nos gastos públicos com o tratamento de saúde dos fumantes, ou ainda no custo social do alcoolismo e tudo que ele acarreta: acidentes de trânsito, desemprego, brigas e morte, desmanche familiar... e há ainda a disseminação do vírus HIV entre usuários de drogas injetáveis, o aumento da violência e a extensão do crime organizado a quase todas as esferas da sociedade. Se é certo que a terapia é indispensável, importa também considerar outras ações possíveis contra o sistema das drogas, dentro do espírito de responsabilidade compartilhada. Diante da magnitude do sistema das drogas hoje, a necessidade de compartilhar as responsabilidades tornou-se mundial, pois nenhum país é capaz de impedir sua expansão sem a colaboração de outros. Tal colaboração internacional não pode ser submetida à hegemonia de um Estado, nem servir de pretexto para a violação da soberania nacional de outros. Respeitando a autodeterminação de cada povo, não escamoteando interesses particulares, nem reduzindo o problema a apenas um de seus elementos (policial, educativo, médico, moral...), a humanidade pode hoje enfrentar adequadamente o problema das drogas. O primeiro passo é a tomada de consciência de nosso ainda limitado conhecimento sobre ele, para, em seguida, assumirmos a co-responsabilidade com outros países, grupos, igrejas, associações, movimentos, enfim todas as forças sociais que desejam ver a humanidade vivendo mais feliz sobre a face da terra sem perder o autocontrole por causa de drogas.
Esclarecendo alguns pontos Ao estudarmos o vasto mundo das drogas, elegemos enfocar o problema da dependência, como motivador principal para esta Campanha da Fraternidade. Vamos aqui descrever de forma resumida as drogas mais usadas no Brasil, alertando para seus efeitos nocivos, e depois analisaremos mais de perto as possíveis causas da dependência de drogas, inserindo o problema no seu contexto sociocultural. Em segundo lugar, vamos esclarecer certos termos e conceitos de nossa abordagem, sempre buscando uma visão mais global, no sentido de questionar algumas idéias correntes e encarar a realidade da forma mais objetiva possível. Em terceiro lugar, obviamente, está a proposta de uma mobilização total de nossa sociedade para buscar os meios possíveis mais eficazes para resolver esse dramático problema do mundo de hoje. O que nos move nesse projeto é a dinâmica da fé cristã, encarnada na caridade que vê, se compadece diante da vítima, tem a iracúndia misericordiosa de Deus para com os responsáveis pela tragédia e age para sanar a situação, conforme vemos na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 23-37). Ao longo de sua história, ao explorar as potencialidades da natureza, a humanidade foi descobrindo uma grande variedade de substâncias vegetais que, adequadamente preparadas, podem provocar sensações agradáveis ou suprimir dores e angústias. Em geral, elas são usadas com finalidade terapêutica, religiosa ou lúdica, e assim inseridas nas normas culturais de cada povo. O problema aparece quando o consumo dessas substâncias foge ao controle social, como ocorre hoje devido à sua exploração comercial, tornando-as um verdadeiro drama para a convivência humana. . Os dados mostram que, apesar dos esforços feitos até agora, o consumo das várias drogas vem atingindo formas e proporções cada vez mais preocupantes. Mas é preciso ir além dos fatos e procurar as causas, atacá-las. É evidente que o consumo abusivo de drogas não deve ser visto apenas como resultado de patologias individuais, mas como um fato social. E aqui está um grande indicativo de causa: "uma sociedade como a nossa, cada vez mais pragmática, insensível, competitiva, consumista e individualista, é uma sociedade que favorece o uso de drogas" (). Ela gerou um mundo onde a existência cotidiana se tornou ao mesmo tempo tão árdua e tão vazia de sentido, que os tóxicos funcionam como "amortecedores" nas relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Há quem use a expressão "civilização química" para designar essa realidade. Muitas entidades têm feito pesquisas e estudos para orientar uma intervenção eficaz contra os males provocados pelo uso indevido de drogas, mas freqüentemente elas se deparam com barreiras, de grandes proporções, como os interesses econômicos envolvidos na produção e venda de drogas (lícitas e ilícitas), a incompreensão de quem não se sente diretamente afetado, e a limitação de recursos humanos e materiais adequados a um enfrentamento político da questão. As políticas públicas do Brasil e de muitos outros países têm concentrado suas energias na repressão às substâncias ilícitas e a seus usuários, mas pouco tem feito no campo da prevenção ao seu uso e da educação para a saúde e quase nada para eliminar as verdadeiras causas da disseminação das drogas. Suas campanhas publicitárias parecem ter tido pouco efeito além de provocar um certo medo das drogas ilícitas, com o risco até mesmo de provocar curiosidade em experimentá-las. Já as drogas lícitas, em particular o tabaco, o álcool e as anfetaminas, não têm merecido a devida atenção. Embora o Ministério da Saúde venha fazendo campanha contra o fumo, esta é contrabalançada por uma publicidade sutil que identifica o fumo e o álcool com sucesso, poder, bom gosto e "finesse".
Mas, o que é mesmo droga?Mas, o que é mesmo droga? Nossa abordagem, resultado de muito estudo, considera como "droga" os psicotrópicos, que, introduzidos no organismo humano, provocam alterações no sistema nervoso central, em particular alterações da percepção, do humor e das sensações, induzindo, ainda que temporariamente, sensações de prazer, de euforia, ou aliviando o medo, a dor, as frustrações, as angústias etc. Essa definição vai além do uso corrente, que só qualifica como "droga" psicotrópicos proibidos por lei. A qualidade e a intensidade das alterações produzidas pelas substâncias psicotrópicas dependem de vários fatores. Os mais importantes são: suas propriedades farmacológicas, a quantidade ingerida, as características particulares da pessoa que ingere, as expectativas em relação aos efeitos da droga e as circunstâncias que envolvem o uso . No caso do álcool, por exemplo, qualquer dose ingerida por crianças é nociva.
Algumas drogas e seus efeitos: As drogas podem ser classificadas como depressoras, estimuladoras ou perturbadoras. Abaixo estão as mais freqüentes no Brasil. A) Depressoras
B) Estimuladoras
C) Perturbadoras
Toxicomania e dependência A toxicomania foi definida pela Organização Mundial da Saúde - OMS - como um estado de intoxicação periódica ou crônica, nocivo ao indivíduo ou à sociedade, causado pelo uso repetido de uma droga, com três características básicas: a) desejo irresistível ou necessidade imperiosa de consumir a droga e procurá-la de todas as maneiras; b) tendência de aumentar as doses; c) dependência psicológica, às vezes física, em relação aos efeitos da droga. A dependência de alguma droga é um caso particular da situação mais ampla da dependência que, desde o nascimento, relaciona todo ser humano com objetos, pessoas e situações, tornando-as indispensáveis para seu bem-estar, auto-estima e equilíbrio psicológico. Mas certas dependências podem causar graves prejuízos, como acontece com a droga. Neste caso, pesam muito as carências individuais dos sujeitos, os possíveis efeitos da droga, e a sensação de prazer dela resultante. Apesar das críticas que podem ser feitas, é corrente a distinção entre a dependência física e psíquica. Fala-se de dependência física quando a droga muda intensamente o funcionamento do organismo a tal ponto que, se o indivíduo deixa de usá-la, aparece um conjunto de sintomas físicos chamados "síndrome de abstinência". O exemplo mais conhecido é o do "delirium tremens", que aparece em alcoólicos crônicos quando privados da bebida. O delírio começa com tremores exagerados, ansiedade, insônia, fraqueza, pesadelos, suores abundantes, dores, alucinações visuais, desidratação, crises convulsivas e, se não houver tratamento adequado, até mesmo a morte. A definição de dependência física inclui a noção de tolerância, que é o processo de adaptação do organismo a determinada droga e, consequentemente progressivo enfraquecimento dos seus efeitos. O resultado é que o usuário sente necessidade de aumentar cada vez mais as doses para continuar obtendo os mesmos efeitos. Há dependência psíquica quando o usuário sente necessidade imperiosa de repetir o uso da droga movido pela lembrança do prazer que seu efeito proporciona. O indivíduo, sem a droga, não chega a ter os mesmos sintomas descritos para a "síndrome de abstinência", mas sofre psicologicamente, sente-se desamparado, inseguro, ansioso, angustiado, desanimado e pode até sentir dores de origem psicossomática. Esses sintomas variam muito de pessoa para pessoa. * O termo "drogado", embora de uso corrente é impreciso e grosseiro. Pode-se chamar de "consumidor de drogas" aquele que consome drogas com intervalos irregulares e, por isso tem maior possibilidade de deixá-las. * É denominado "toxicodependente" aquele que toma regularmente um remédio ou droga, mas com capacidade para deixá-la ainda que a custo de muito esforço. * Denomina-se "toxicômano" aquele que, definitivamente, passa boa parte do seu tempo e de sua vida na busca de drogas, das quais já não pode mais se desfazer. Cabe também aqui considerar a distinção entre drogas "leves" e "pesadas". Há quem rejeite tal distinção porque ela alivia o peso da condenação social e da repressão policial sobre drogas como a maconha, o fumo e o álcool que, embora sendo imediatamente menos prejudiciais a quem as consome, acabam sendo tão ou mais nocivas à sociedade pelo seu efeito massivo. Nessa perspectiva, o fumo e o álcool devem receber a mesma estigmatização das demais drogas, uma vez que tal classificação não deve ser apenas de ordem técnica, mas embutir uma Política Social que vise à eliminação de todas as drogas. Quem, ao contrário, considera um direito individual o consumo de drogas "leves" desde que não prejudique as demais, postula uma Política Social que reprima a indução de pessoas indefesas ao uso de drogas e concentra todo esforço na eliminação das drogas "pesadas". Entre essas duas posições polares, podem-se encontrar diferentes concepções quanto à política de controle e repressão às drogas. Enfim, para explicar a toxicomania é preciso ter em mente que ela "é o encontro de um indivíduo, um produto (a droga), e um momento sociocultural." Esse modelo de compreensão do fenômeno da dependência parece ser o mais adequado por abranger tanto drogas "leves", como o álcool, quanto as mais "pesadas". Em todas as situações de dependência, é preciso ter presente o tripé "pessoa / substância química / contexto sociocultural": a análise cuidadosa das relações entre esses elementos oferecerá uma visão mais realista do problema, evitando simplificações em que um dos três elementos parece explicar o todo.
Procurando explicações mais profundasProcurando explicações mais profundas Em geral, nosso contato direto com o problema das drogas se dá quando alguma pessoa de nossas relações torna-se tóxicodependente ou alcoólico. Mas o problema das drogas vai muito além de nossas relações pessoais ou familiares. Ele pode ser percebido na "boca de fumo", que traz medo e insegurança às pessoas, nas propostas recebidas por pequenos agricultores para plantar maconha, na corrupção que mancha setores da polícia e dos poderes constituídos, nas denúncias de "lavagem" de dinheiro, ou nos escândalos desvelados pela CPI do Narcotráfico. Ao nos depararmos com essas realidades, percebemos que o mundo das drogas está muito próximo de nós. E aí nos fazemos muitas perguntas: por que tanta gente consome regularmente drogas? Como explicar o avanço do narcotráfico? Será que não há formas de resistir? Onde fica o sonho de vida agora ameaçado pelo pesadelo de substâncias que só nos alienam da realidade? A resposta a essas perguntas não é simples nem direta. Não podemos reduzir a raiz do problema a uma questão meramente pessoal. Tampouco se pode falar da crise sócio-econômica e política como causa primeira, uma vez que os Estados Unidos são o maior consumidor mundial de drogas. Nem instituições como a família ou a escola podem ser unicamente responsabilizadas. Se queremos alguma luz sobre tais perguntas, precisamos ter a coragem de tomar o longo caminho da análise e da reflexão sobre essa realidade, muito complexa. Na verdade, estamos diante de um conjunto de fatores que, combinados, formam o pano de fundo para se entender esse complexo campo das drogas. Suas conseqüências são visíveis a olho nu. Suas causas, porém, se escondem por trás de aparentes certezas que mais facilmente iludem do que revelam. Além do mais, o consumo freqüente de cada tipo de droga tem motivações distintas de uma para outra, e não podemos reduzir tudo a um único fator explicativo.
O uso de drogas O uso e o abuso de drogas tem crescido de modo significativo. Cada vez mais diminui a idade do primeiro contato com as drogas. A ajuda clínica tem mostrado o desencanto da população jovem, a mais sacrificada, quando os valores familiares e educacionais não conseguem assumir o papel integrador. Numa sociedade carente de modelos estáveis de identificação, principalmente para a faixa etária em que os valores ainda estão em gestação, instala-se um sentimento de angústia e insegurança. As drogas tornam-se então atraentes, sendo vistas como solução rápida e desejada contra a angústia, embora não alterem a situação real. São muitas as motivações para o consumo de drogas. As motivações de natureza coletiva normalmente regulam e restringem o seu uso a determinadas ocasiões, lugares ou companheiros. É o caso da bebida usada com moderação, entre os colegas depois do expediente, nas festas ou na ceia de Natal. Dificilmente o consumo de drogas, limitado a situações como essas, provocará dependência. Outras são as conseqüências das motivações individuais, que vão da busca de prazeres intensos e imediatos (o que pode significar ausência de perspectivas, ou descrença num futuro satisfatório), à dificuldade de encarar o mundo com seu próprio potencial (o que pode revelar a existência de problemas psicológicos). Quando essas motivações são muito fortes, busca-se uma alteração da consciência pelo recurso a alguma droga. Aí pode começar a dependência e, com ela, os problemas mais graves para o usuário e as pessoas que o cercam. O estado de fragilidade ou desequilíbrio psicológico parece ser um importante motivador para o recurso às drogas. Sendo a adolescência um período de instabilidade emocional e biológica, ela torna-se um momento propício ao uso experimental das drogas. De fato, "o último levantamento do CEBRID, realizado em 1997, revela que o percentual de adolescentes que já consumiram drogas (uso na vida) entre os 10 e 12 anos de idade é altíssimo: 51,2.% usaram álcool; 11% usaram tabaco; 7,8%, solventes; 2%, ansiolíticos e 1,8% já se utilizaram de anfetamínicos nessa faixa etária. Nas 10 capitais pesquisadas, cresceu a tendência para o uso freqüente de maconha entre crianças e adolescentes. O uso de cocaína e de álcool também aumentou em 6 capitais. A situação agrava-se entre as crianças e adolescentes em situação de rua. Segundo o levantamento de 1993, o uso de drogas por essa população apresenta os seguintes percentuais: 82,5% em São Paulo, 71,5% em Porto Alegre, 64,5% em Fortaleza, 57% no Rio de Janeiro e 90,5% em Recife. As drogas mais comumente usadas por crianças de rua são: o tabaco, os inalantes, a maconha." Tal realidade desrespeita os direitos reconhecidos no Estatuto da Criança e do Adolescente.
Rostos desfigurados Quantas vezes encontramos pessoas alcoolizadas estiradas nos caminhos e calçadas? Mas é dentro de casa que o álcool provoca maiores estragos. Discussões, desavenças, separação e, no extremo, briga, agressão física e quebradeira são os resultados mais diretos. As mulheres e crianças costumam ser as mais atingidas, sofrendo às vezes por anos a fio e em silêncio os efeitos do alcoolismo de marido, filhos ou irmãos. Uma grande quantidade de famílias sofre o drama de conviver diariamente com um alcoólico dentro de casa. Sofre a pessoa dependente e sofrem seus familiares, principalmente quando é a própria mãe a alcoólica. Por outro lado, na hora de se livrar da bebida, devido aos laços afetivos, a família co-dependente, que procura a libertação, constitui normalmente o maior suporte e apoio no processo de cura. Das pessoas que você conhece, quantas são fumantes? O cigarro fascina muitos jovens e adolescentes, sendo muitas vezes apresentado pela propaganda como símbolo de status adulto e independente. Felizmente, já há leis que limitam sua propaganda e proíbem o cigarro em alguns ambientes públicos, aviões e ônibus. Sabe-se que além do câncer de pulmão, muitos outros males são causados pelo fumo, não apenas nos usuários mas também nas pessoas que, estando perto do fumante, inalam a fumaça sem querer. Também aqui vale sublinhar a importância do afeto e do carinho dos amigos e familiares na hora em que o fumante deseja se livrar do cigarro, o que nem sempre é fácil. Popularizada pelos grupos de rock nos anos 60, a maconha é o entorpecente mais comum entre os jovens, sendo consumida também por adultos de todas as camadas sociais. A maconha tem sido considerada a porta de entrada para drogas "pesadas". Devido à facilidade de produção, são muitos os pontos de venda da maconha, apesar de seu tráfico e seu porte constituírem transgressão penal. Seu uso por tempo prolongado torna a pessoa apática e, no limite, incapaz de um trabalho produtivo. A palavra "droga" está hoje associada principalmente à cocaína e ao crime organizado em torno de seu tráfico em âmbito mundial. Comercializada em forma de pó branco, é mais usada por adultos que por jovens. Normalmente, o pó é aspirado, podendo também ser injetado na veia, uma vez diluído em água. Há quem fume a pasta da coca, produto grosseiro extraído de folhas tratadas com solventes como querosene, gasolina, ácido sulfúrico ou metanol. Seu uso aumenta a pressão arterial e provoca taquicardia. Em casos extremos, pode causar parada cardíaca. Dois subprodutos da cocaína, porém, muito mais danosos ao organismo humano, são o crack e a merla, cujo preparo possibilita a ingestão por meio do fumo, que leva a cocaína diretamente ao pulmão e, daí, ao cérebro. Provoca um prazer intenso mas rápido, levando o usuário ao desejo incontrolável de repetir muitas vezes a dose (é o que chamam fissura). Droga mortífera para muitos meninos e meninas de rua, especialmente em São Paulo, Recife, Salvador e Brasília, mas também para canavieiros do Nordeste. Seu uso continuado deixa o dependente num estado lastimável, porque perde as noções de higiene, torna-se violento, irritado e toma atitudes bizarras devido à paranóia. Se as drogas em geral constituem um caminho sem volta, neste caso a vida costuma ser tão curta e trágica que muitos traficantes são contrários à sua produção para não perderem clientela. As drogas injetáveis (no Brasil, a cocaína; noutros países, também a heroína) estão entre as mais mortíferas para seus usuários porque, além de seus riscos intrínsecos, favorecem a transmissão do vírus HIV (AIDS), já que seu consumo costuma ser feito em grupo. O resultado da injeção intravenosa provoca um prazer intenso, porém mais passageiro do que a aspiração nasal, o que aumenta a "fissura" e, consequentemente, leva a um consumo fora de controle. Seus efeitos sobre a pessoa são arrasadores.
O pesadelo da família Combinadas com outros fatores de caráter estrutural, as drogas interrompem o sonho de convivência harmoniosa. Quando a droga entra pela porta, a paz sai pela janela. A família, em muitos casos, se torna refém do traficante. Os gastos com entorpecentes ou com o álcool levam muitas famílias a perderem bens acumulados com o sacrifício de anos. Além disso, o medo de represálias passa a rondar a casa e, com isso, sofrem todos os membros da família. Aspecto importante é a mudança no papel da mulher na estrutura familiar. Por diversas influências, está acontecendo uma sadia superação do patriarcalismo no lar. Com novos valores referentes à dignidade humana e, também, ao se tornar economicamente autônoma, a mulher tem, positivamente, mais participação nas decisões na família, e o mesmo ocorre com os filhos. Essa reestruturação de papéis, porém, precisa vir acompanhada de um novo modo de ser presença, como pai e mãe, junto aos filhos, hoje muitas vezes realizada por meio de verdadeiras chantagens. O que mais se vê é que, além da ausência dentro do lar, por parte do pai, o que já é secular, soma-se agora a ausência da mãe, ocasionando, em muitos casos, filhos órfãos de pais vivos. O custo psico-afetivo e financeiro dessa ausência torna-se cada vez mais alto: personalidade imatura, presentes, promessas, tratamentos psicológicos, babás etc. É óbvio que, hoje, o casal que decide formar família necessita trabalhar bem esta questão da presença eficaz de ambos junto aos filhos, já que antes a carga maior ficava com a mãe. Pode-se afirmar que uma das grandes causas da busca da droga pelas crianças, adolescentes e jovens provém do vazio afetivo existente na família. Um outro elemento a ser considerado em relação à família é o das crises entre marido e mulher, que, obviamente, repercutem profundamente nos filhos, levando-os às vezes à fuga nas drogas. O problema atinge, não raro, os próprios adultos. O desrespeito, as traições, o rompimento e a recomposição de laços matrimoniais são, hoje, cada vez mais freqüentes entre os casais. E a mídia tripudia, com a maior liberalidade, sobre essas questões, tornando-as corriqueiras e normais na opinião pública. Só que essas situações são sempre vividas, na prática, com muito sofrimento, e as principais vítimas são os filhos. Nem sempre, nos casais, há maturidade, humildade e amor, que, se é verdadeiro, tem sempre o ingrediente da renúncia, que os ajuda a encontrarem uma solução menos traumática para todos, principalmente os filhos. Daí, muitas vezes, a equivocada busca de bálsamos na bebida, no fumo, nos calmantes, e, por fim, em entorpecentes, que, em casos desesperados, parecem oferecer a saída ilusória para o sonho da felicidade.
Um caso entre tantos outros "Queridos pais, Imagino a raiva que têm de mim. Sim, fui muito ingrata com vocês. Larguei os estudos, tornei-me viciada, desapareci. Vim para São Paulo com um amigo e, aqui, passei a viver de pequenos expedientes. Na verdade, afundei-me na lama. O fato é que, agora, estou na pior. Peguei AIDS. O que temo não é a morte. Ela é inevitável para todo nós. Tenho medo é de ficar sozinha. Preciso de vocês. Mas também sei que os maltratei muito e posso entender que queiram manter distância de mim. Cada um na sua. É muito cinismo da minha parte vir, agora, pedir socorro. Mas, sei lá, alguma coisa dentro de mim dá forças para que eu escreva esta carta. Nem que seja para saberem que estou no início do fim. Um dia qualquer, passarei aí em frente de casa, só para dar um último adeus com o olhar. Se por acaso tiverem interesse que eu entre, numa boa, prendam, à goiabeira do jardim, um pano de prato branco ou uma toalha de rosto. Então pode ser que eu crie coragem e dê um alô. Caso contrário, entendo que vocês têm todo o direito de não querer carregar essa mala pesada e sem alça na qual me transformei. Irei em frente, sem bater à porta, esperando em Deus. Que, um dia, a gente se reencontre no outro lado da vida. Beijos da filha ingrata, mas que ainda guarda, no fundo do coração, com muito amor, (sic.). Clara Três semanas depois, antes das cinco horas da manhã, Clara desembarca na rodoviária e toma um ônibus para a Praia do Canto. É quinta-feira, e o vento sul começa a aplacar o calor, encapelando o mar e silvando entre prédios e janelas. Clara desce na esquina e caminha, temerosa, pelo outro lado da rua. Sabe que, a essa hora, seus pais e as duas irmãs costumam estar dormindo. Ao decifrar a ponta do telhado, seu coração acelera. Olha o portão de ferro esmaltado de preto, as grades em lança que marcam o limite entre a casa e a calçada. Vislumbra o cume da goiabeira. Seus olhos ficam marejados. De repente, uma coisa branca quebra o antigo cenário. Não é uma toalha nem um pano de prato. É um lençol, com pequenos furos no meio, tremulando entre a árvore e o muro da garagem. Em prantos, Clara atravessa a rua e corre para casa". (Extraído do romance de Fr. Betto: O Vencedor; Ática, 1995)
O sonho da harmonia social O relacionamento entre as pessoas pode ser carinhoso, amigável, fraterno, mas também pode ser mesquinho, egoísta, carregado de inveja, ciúme e vingança. Podemos viver unidos por laços de solidariedade ou de concorrência. Esta, traz consigo desconfiança mútua e competição, aquela traz justiça e partilha. Claro que ambas se misturam no cotidiano de nossas vidas, gerando medos e angústias. De um lado, as pessoas podem desenvolver um individualismo exacerbado, uma subjetividade doentia. Por outro lado, elas podem desenvolver personalidades autênticas, amadurecendo uma individualidade que torna a amizade e a solidariedade mais verdadeiras. Na verdade, uma e outra atravessam o coração de cada ser humano e o coração da sociedade como um todo: mesmo os que temos o melhor propósito de realizar o sonho do grande banquete da vida, por vezes trabalhamos só para nós mesmos, descuidando da harmonia universal. Quando predomina a exaltação do mais forte, do vitorioso, do competitivo, prevalece também o individualismo, o corporativismo, a exclusão dos pequenos e dos fracos. E, infelizmente, é esse o contexto da sociedade neocapitalista e hedonista, que já está dominando boa parte da sociedade brasileira, perante o qual estamos perdendo a distância crítica e abandonando a busca de alternativas mais humanas. A competição desregrada em busca dos interesses egoístas quebra sonhos individuais, familiares, comunitários e universais. Aliás, uns e outros estão estreitamente vinculados. Ao romper laços individuais ou familiares, estamos comprometendo a fraternidade universal. E, reciprocamente, ao desenvolver estruturas sociais, econômicas e políticas escandalosamente desiguais, estamos fragmentando esperanças de indivíduos e famílias concretas. Todos os sonhos estão inter-relacionados. Rompendo os fios que os costuram, desfaz-se toda a rede. O resultado disso é uma distância enorme e crescente entre o sonho de Deus e o nosso, por um lado, e, por outro, uma realidade que nega, no dia-a-dia, a possibilidade de uma existência sintonizada, harmoniosa, justa, igualitária e feliz. Realidade que, embora em graus diferenciados, afeta todas os setores sociais e abre caminho para desvios comportamentais, inclusive o uso de drogas. Para entendê-la convém considerar o processo de transformação em curso no mundo atual.
Um mundo em criseUm mundo em crise O mundo no qual vivemos é uma sociedade em busca de caminhos. Os estudiosos falam de sociedade pós-industrial, pós-moderna, informacional etc. O fato é que os grandes paradigmas estão se transformando. Sabemos o que deixamos para trás no século XX, mas não sabemos em qual direção caminha o mundo no século XXI. Acreditamos na possibilidade de um novo milênio sem exclusões, mas constatamos uma realidade cada vez mais excludente. Já a Gaudium et Spes (n. 4) constatava, em 1965, que "o gênero humano encontra-se hoje em uma fase nova de sua história, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro". De fato, a mundialização do mercado e a globalização da cultura, gerada nos pólos mais ricos, estão dissolvendo as sociedades tradicionais e impondo sua integração no moderno sistema mundial como sociedades periféricas e subalternas. Nossa sociedade é, cada vez mais, marcada pelo urbano, que hoje inclui mas ultrapassa a cidade. Trata-se menos de um espaço geográfico e mais de um modo de ser, de viver, enfim, de uma nova cultura com sua linguagem própria, seus valores e contravalores refletindo uma nova mentalidade comparada à rural tradicional. Cultura e mentalidade urbanas que exercem um forte fascínio tanto na zona rural quanto na própria cidade. Para uma imensa multidão que, por causa de uma política rural equivocada, foi e é expulsa do campo nestes últimos anos, a cidade é, porém, com todos os seus apelos, um verdadeiro inferno. Espaço de desenvolvimento tanto de uma individualidade madura e sadia quanto do individualismo mais feroz, o mundo urbano é, infelizmente, propício à violência, aos vícios, ao consumo de drogas. Na luta pela sobrevivência física, mental, moral e religiosa nessa selva de pedra, não tendo mais as referências do universo rural, consideradas sólidas pelos que vivem no campo, a insegurança diante dos caminhos a tomar neste novo ambiente pode conduzir a escolhas erradas. Há, na cultura urbana, novos enfoques dados aos valores, como amor, liberdade, família, religião, que assustam e perturbam. Assim, por exemplo, liberdade, amor, fidelidade, solidariedade, convertem-se em fardo pesado, parecendo ser mais fácil abdicar das opções pelos valores humanos que contam, evitando-se responsabilidade e compromisso. Em lugar da liberdade, as pessoas se amarram na teia das ilusões das promessas do ganho fácil, da libertinagem, das aventuras. E aí se abrem as portas para o comportamento anti-social, entre os quais o do consumo de drogas.
Nova forma da mercadoria e hegemonia neoliberal O fenômeno da crise de valores na cultura urbana tem raízes nas transformações pelas quais passam a economia e a política em âmbito mundial, a partir de uma ideologia avessa aos valores humanos, porque fundada no absolutismo do dinheiro, que, por sua vez, cria um fascinante universo simbólico próprio. A produção e o comércio se difundem e se globalizam, e o capital financeiro ganha hegemonia e desconhece fronteiras. Instala-se, em todo o mundo, feroz concorrência pela disputa de mercados, não tanto pelo aumento do número de consumidores, como na onda do "consumo de massa", mas para vender muito para os poucos que podem comprar. Temos aí a corrida pela produção de bens supérfluos, com a conseqüente exasperação dos desejos e, portanto, a criação de necessidades artificiais. A mercadoria incorpora cada vez menos valor de uso e mais valor simbólico, que é transferido ao custo: o que conta é a marca, a "griffe", a sensação de identidade com o esportista ou a celebridade que aparece na propaganda. Esse consumo de mercadorias simbólicas apóia-se na aura dos grandes vencedores e atrai pessoas dispostas a pagar qualquer preço para participarem desse mundo mágico, forçando quem não pode pagar a entrar em depressão ou a tê-los a qualquer custo, por meio de roubos ou de assaltos. Associada ao processo de globalização, as ideologias consumistas adotadas pelas elites e difundidas por muitos órgãos da mídia tornaram-se modo de pensar e de agir político que desqualifica como "atrasada" outras opções que se apresentem em oposição. Um de seus postulados é que o mercado não deve ser submetido a regulamentações externas e que o Estado não pode intervir na vida econômica, mas sim favorecê-la. Para alguns teóricos dessa ideologia, ao Estado cabem as ações no campo social, isto é, no campo não atendido pelos agentes econômicos do mercado, o que é, em geral, dificultado por causa do alto custo do serviço e da dívida externa a ser paga aos credores. Uma das conseqüências dessa ideologia é a redução dos investimentos públicos nos setores de saúde, educação, agricultura, previdência social e habitação. Outra conseqüência grave é o desemprego, que faz multiplicar o trabalho informal. Nesse mundo em crise de valores, tanto entre os socialmente bem situados como entre os mais pobres, instala-se facilmente o caos, a incerteza e a insegurança, como nos pesadelos de beco sem saída. Os horizontes se fecham e as esperanças se reduzem. O caminho longo e penoso da reflexão, do diálogo e do compromisso é facilmente descartado em troca de alguma coisa que proporcione ao menos um alívio momentâneo e permita escapar do enfrentamento com a dura realidade. Não é surpreendente que adultos, jovens e até crianças procurem nas drogas um meio de fugir dos seus problemas. Na raiz de tudo está, portanto, uma sociedade destituída de sentido verdadeiro para a vida humana. O consumismo, a busca do prazer individual, a concorrência exacerbada geram um egocentrismo doentio. Valores como a amizade, a solidariedade, a busca do bem-comum tornam-se "caretas", ultrapassados. A via longa, reflexiva, dialógica e comprometida é substituída pelo caminho fácil da satisfação individual. O compromisso de vida dá lugar ao evento instantâneo. O sentimento dá lugar à sensação. A relação dá lugar ao uso efêmero do outro. É como se tudo tivesse se tornado descartável: os produtos, os bens da natureza e até as pessoas. A sensação de vazio e de infelicidade é o resultado dessa experiência sem profundidade afetiva, sem carinho e sem diálogo. A existência perde o tempero e o brilho, e abre-se o caminho para a busca ilusória do prazer imediato. Mas este só faz aumentar a desilusão, o vazio e a infelicidade. Daí a depressão, as despesas com infindáveis tratamentos, e o recurso ao artifício das drogas, com todas as suas trágicas conseqüências. Mas não haverá droga suficiente para preencher esse poço sem fundo. Ao contrário, quanto mais drogas, mais ele se aprofunda, até à destruição total da pessoa.
A restauração dos sonhos E como devem se colocar os cristãos diante desse imenso desafio, eles mesmo vulneráveis em todo este universo em crise? Em tal sociedade, que se modifica a uma velocidade extraordinária, mais do que nunca valem as palavras da Constituição Pastoral Gaudium et Spes nº 1: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo". É vital, obviamente, uma extraordinária revitalização da fé, porque o sonho de Deus permanece de pé. Numerosas forças vivas e ativas, dentro e fora da Igreja, estão procurando, com humildade e tenacidade, levar adiante o projeto inspirador da Criação. A resistência, a teimosia e a coragem dessas pessoas, grupos, comunidades de base, movimentos e organizações mantêm acesa a chama de um amanhã novo e recriado. É por isso que a CF-2001 tem por lema em primeiro lugar não o repúdio às drogas mas a afirmação "Vida sim!". Certamente não é fugindo da realidade por meio dos sonhos ilusórios, proporcionados pelas drogas e suas "viagens", que construiremos o ambiente de vida harmoniosa e prazerosa que, eticamente, tanto desejamos para nós mesmos e para as próximas gerações. Uma intuição profunda nos diz que basta uma sociedade "frugal", sóbria, onde nos contentemos com pouco, desde que o pouco seja o suficiente para todos, pois realmente necessário é que as relações humanas nela existentes sejam permeadas por autênticos valores que produzem a alegria de viver. Acreditamos que esse sonho do "paraíso", que parece perdido no passado remoto, será reconhecido em algum lugar do futuro: um dia a humanidade chegará lá, restaurará seus mais lindos sonhos e completará o sonho do Criador. Nessa caminhada, muitas pessoas, por causa das circunstâncias atuais, são derrubadas pelas drogas, e sua queda nos interpela como um pedido de socorro. Socorro que deve traduzir-se tanto no cuidado com cada pessoa, quanto numa Política Social e numa ordem econômica que busca o bem comum, a distribuição eqüitativa dos bens, superando o neoliberalismo, "que considera os lucros e as leis do mercado como parâmetros absolutos a prejuízo da dignidade e do respeito da pessoa e do povo".
A cruel realidade do mundo das drogas, do qual este Texto-base nos revela uma pequena amostra, não deixa ninguém indiferente. Há uma indignação ética que, por si mesma, irrompe no coração de qualquer um que aposta no ser humano, luta por um mundo melhor para seus filhos, seus alunos, seus amigos e colegas, seus concidadãos, seus irmãos e irmãs de fé e ideal. Há também um sentimento de compaixão pelas vítimas dos sistemas que favorecem o comércio, o tráfico e o consumo das drogas, e, ao mesmo tempo, um sentimento de clamor por justiça em relação aos causadores desse imenso problema. Entre esses sistemas, se destaca a ideologia neoliberal que, ao considerar o lucro e as leis do mercado como parâmetros absolutos, atenta contra a dignidade da pessoa e do povo e descuida dos mais frágeis na sociedade. Há ainda os exploradores da fragilidade humana, que esvaziam as pessoas do sentido da vida, para oferecer-lhes como solução os vícios que alienam e fazem fugir, e com os quais esses exploradores se enriquecem. Nesta segunda parte do Texto-base, além de uma atenção prioritária às pessoas vítimas das drogas, a serem atendidas segundo os preceitos da ética, da cidadania e do amor, buscamos na Palavra de Deus luzes que apontam caminhos para essas vítimas e apoio para os que a elas se dedicam. Evidenciamos, também, o apelo de Deus à conversão dos que tripudiam sobre seus filhos e filhas e, ainda, conforme o caso, a veemente condenação deles pela justiça divina. Incentivamos as comunidades para que, à semelhança das outras partes deste Texto-base, procurem complementar os dados aqui colocados.
O contexto social das drogas A Igreja, como vimos na primeira parte deste Texto-base, é consciente de que todo o trágico problema das drogas, que afeta profundamente as pessoas nelas envolvidas, suas famílias e grandes parcelas da sociedade, é agravado por um contexto social, econômico, político e cultural, que gera esvaziamento do sentido da vida, desespero, fugas e busca ilusória do prazer. O Papa João Paulo II, vai direto ao cerne da questão.: "É necessário denunciar com coragem e com força o hedonismo, o materialismo e aquele estilo de vida que facilmente induzem à droga". É essencial, sim, atender, e da melhor maneira possível, a vítima das drogas, mas é igualmente essencial lutar contra as situações que conduzem ao uso desses venenos e contra os que criminalmente os disseminam. À luz da fé se constata que a idolatria do dinheiro, que absolutiza a riqueza, o capital, a economia de mercado e o consumismo, constróem uma sociedade injusta, na qual os que têm dinheiro e bens se tornam senhores da vida e da morte dos que nada ou pouco têm, além de se tornarem, também, senhores da natureza. A injustiça social impele os mais ricos e os mais fortes ao despojamento dos bens e dos direitos dos outros para deles se apropriarem. O egoísmo impulsiona a acumular, impede a partilha, leva à escravização da natureza e ao desperdício, não se importando com os milhões de seres humanos carentes de tudo. A qualidade de vida é confundida com o nível de consumo e com a quantidade de coisas a possuir. A confiança, a segurança, a garantia e o sentido da vida são colocados no dinheiro e nas coisas, em detrimento das pessoas. O mundo globalizado a partir do ídolo dinheiro, escreve o professor Milton Santos, manipula ardilosamente a competitividade, que comanda as nossas formas de ação, o consumo, que comanda as nossas formas de inanição, e a confusão dos espíritos, que impede o nosso entendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós. Uma das molas propulsoras dessa globalização perversa, segundo ainda o professor Milton Santos, é o uso despótico da informação a serviço da ideologia neoliberal, que busca instruir e convencer. A idolatria do dinheiro (cf. Am 6, 3-7; Am 4, 1- 3; 1 Tm 6,10) requer vítimas, e um deles é o dependente das drogas. Por detrás de toda vítima da dependência química há uma indústria que precisa de muito dinheiro. São milhares de pessoas arriscando literalmente a vida para conseguir mais clientes para comprar drogas e, assim, captar mais dinheiro. É necessário tratar a vítima, mas é fundamental também atingir as causas que ultrapassam o nível da pessoa afetada, causas que conformam uma gigantesca trama de produtores, grandes industriais da droga, agentes financeiros e traficantes. Poderosos que são, eles conseguem armar exércitos, dominar bairros, comprar políticos e pessoas influentes nas altas rodas sociais, nos meios de comunicação social, na polícia e escravizar pobres para servi-los. Além da dominação pelo vício da droga, há o domínio, pela promessa de riqueza, rápida e fácil, de felicidade e, mais ainda, pelo temor, pois o assassinato é moeda corrente nesse trágico meio. Diz o Catecismo da Igreja Católica, 2290: "O uso das drogas inflige gravíssimos danos à saúde e à vida humana. Salvo indicações estritamente terapêuticas, constitui falta grave. A produção clandestina e o tráfico de drogas são práticas escandalosas; constituem uma cooperação direta, pois incitam a práticas gravemente contrárias à lei moral". Quem desenvolve em si e nos outros a cidadania, fundamentada na ética, na justiça social, na fraternidade e na solidariedade, está plantando a sociedade segundo o Plano de Deus e, portanto, criando dificuldades para aqueles que têm o propósito de dividir e destruir, reinar como senhores deste mundo. Não há como clamar "Não às drogas! Sim à vida!" sem lutar denodadamente por profundas mudanças no modelo social vigente, gerador de emprobrecimento da maior parte do povo, de exclusões e de esvaziamento do sentido da vida. O amor ao outro, como pessoa, exige o compromisso da luta por criar condições humanas, sociais e espirituais básicas que garantam a todos a alegria interior de viver, amar, ser generoso e fazer o bem.
Para refletirPara refletir: Que apoio damos aos que lutam por erradicar as causas econômicas, sociais, políticas e culturais que geram e alimentam o mundo das drogas? Que meios concretos temos para impedir em nosso bairro, em nossas famílias, em nossas escolas a influência dos traficantes?
O contexto pessoal das drogas Ser humano - obra preciosa Muito esforço, perseverança, gastos materiais e emocionais envolvem a recuperação não só dos dependentes químicos mas de qualquer pessoa que esteja em situação de risco. Vale a pena? Responde mais fácil e rapidamente a essa pergunta quem tiver amor pela pessoa em questão. Quem ama sabe perfeitamente que o outro não é descartável, que sua perda é algo difícil de aceitar, seja qual for o problema em que esteja envolvido. Se assim é com o amor humano, mais ainda o será com o amor de Deus, terno criador de todos e de cada um em particular. Para Deus todos nós temos nome e temos nossa história, que é por ele conhecida e acompanhada com desvelos incríveis. Podemos aplicar a cada pessoa as ternas declarações de amor que Deus faz a seu povo através do profeta Isaías: "Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem jamais o meu amor te abandonará" (Is 54,10); "Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca" (Is 49, 15) O Salmo 139 (138) diz que o Senhor sonda, conhece e acompanha cada um de nós, penetra nossos pensamentos e nos envolve por todos os lados. Deus não é presença de um fiscal que não deixa escapar nenhuma falta. Ele é a solicitude própria do amor, para cada um e para todos, sem exceção. Cada um está sempre diante de sua ternura solícita que não descansa, que não abandona ninguém em momento algum. E quanto mais frágil e necessitada é a pessoa, maior é o desvelo do Senhor. Seu amor preferencial pelo empobrecido, pelo pecador, pelo enfermo, pelo excluído é pura gratuidade. Não há mérito algum no carente em conseguir ser alvo preferencial do seu amor misericordioso e de libertação. E se o amor humano provém do amor de Deus, obviamente é-lhe intrínseco o desvelar-se pelo mais necessitado. É o que acontece em qualquer família em que reina o amor. E é o que deveria acontecer na vida de cada cristão, de cada grupo de cristãos e da comunidade eclesial. Esse mesmo sentimento é expresso por Jesus na parábola da ovelha perdida (cf. Mt 18, 10-14; Lc 15, 3-7): o amor de Deus não é, e o nosso também não deveria ser, uma questão de estatística. Afinal 99% do rebanho a salvo seria um bom saldo, mas o pastor não descansa enquanto houver uma única ovelha exposta a sofrimentos e perigos. Também não se trata de algum mérito especial da ovelha extraviada: ela pode não ser a mais produtiva, é apenas preciosa para o coração do pastor. Na Campanha da Fraternidade 2000, quando tratamos da Dignidade Humana, vimos que cada ser humano abandonado é um sinal de pouco apreço pela inviolável sacralidade da vida humana. Cada vez que permitimos, por omissão ou indiferença, que um ser humano que sofre fique entregue à própria sorte, estamos negando na prática o valor da vida humana que afirmamos em tantos discursos. Quando o valor da vida de alguém é desconsiderado, abre-se caminho para não mais se considerar inviolável e preciosa a vida de qualquer um. Em se tratando de vida humana, qualquer exceção é ameaçadora e perigosa para todos.
Criados por amor e livres, para sermos felizes A Bíblia traz, nos seus primeiros capítulos, uma reflexão sobre o ser humano colocado diante de uma proposta de paraíso, de vida feliz (cf. Gn 2, 4b-24). Mas não era uma felicidade obrigatória, sem alternativa. Era uma felicidade a ser construída e preservada por meio do desafio da liberdade (Gn 2, 25 a 3, 1-24). Mas muita gente talvez se pergunte: E isso não foi perigoso demais? Vejam só quanta desgraça a humanidade construiu usando essa liberdade! Não seria melhor Deus ter guardado para si esse arriscado presente, o da liberdade humana? Sem liberdade, seríamos robôs, incapazes de ser felizes ou infelizes, seríamos marionetes na mão do Criador, sem sentido próprio. Ser criado à imagem e semelhança de Deus é também ser um interlocutor capaz de criar, transformar. Para o bem e para o mal? Sim, é verdade, mas é a possibilidade do "não" que enriquece o significado do "sim". Podemos usar mal a liberdade que nos foi dada, mas sem ela não realizaremos coisa alguma que tenha sentido humano. O resumo da lei de Deus, na versão do Deuteronômio, mostra que, ao mesmo tempo que garante a nossa inestimável liberdade, o Senhor está profundamente ansioso para que façamos a escolha certa. Ele aponta um caminho, não por vontade arbitrária de ser obedecido, mas porque quer o melhor para nós, com toda a força do seu amor: "Eis que ponho diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade... Eu hoje te ordeno: ame o Senhor, teu Deus, ande nos seus caminhos e guarde os seus mandamentos, suas leis e seus costumes. Eis que eu ponho diante de ti a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e a tua posteridade, amando o Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e ligando-te a ele!…" (Dt 30, 15-20). A luta pela liberdade tem inspirado fantásticos heroísmos na história da humanidade. Entre os adolescentes, ela faz parte da construção da personalidade de cada um e se manifesta na necessidade de se auto-afirmar, muitas vezes testando suas próprias forças contra os padrões socialmente estabelecidos. A educação da liberdade nos adolescentes e jovens não é nada fácil para pais e educadores, em face das investidas de inescrupulosos que exploram essa delicada fase da vida humana, açulando, com desastrosas conseqüências, um uso pervertido deste maravilhoso dom de Deus, que é a liberdade. O dependente de drogas, por exemplo, usando mal o dom da liberdade, perde-a em grande parte para a droga. E aos poucos direciona seu ser para um ídolo, a droga, que vai destruir a sua vida. O mesmo ocorre com pessoas dominadas por qualquer outro vício. A salvação dessas pessoas estará exatamente na recuperação do exercício construtivo do precioso dom da liberdade, na capacidade de atribuir-se sadios limites, dizer não ao ídolo devorador. Elas precisam crer que podem mais do que o hábito que tomou o controle de suas vidas, crer que podem, com a força de Deus e o apoio dos irmãos, não só conseguir a libertação, mas se colocar a serviço da libertação de outros, e do verdadeiro sentido da vida. É evidente, porém, que se requer um passo fundamental, o qual somente a própria pessoa afetada pelo vício pode dar: a conversão. Deus, que respeita o uso que fazemos da liberdade, colabora conosco e espera ansioso por um pequeno sinal de nossa vontade para a nossa conversão e o retorno à casa paterna, como aconteceu com o filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32). E Deus nunca deixa de oferecer motivação e caminhos de volta. Ele, que nos ama infinita e apaixonadamente, será parceiro na recuperação da liberdade, porque foi para a liberdade que ele nos criou e Cristo nos libertou (cf. Gl 5, 1-26). E é para oferecer caminhos de libertação, que o Senhor suscita pessoas e instituições, que se colocam a serviço das pessoas afetadas pela tragédia dos vícios, pela tragédia da droga.
A sabedoria de livremente impor-se limites Liberdade e limites serão opostos, incompatíveis? Muitos experimentam não ter limites e descobrem que acabam perdendo juntamente com eles a possibilidade de importantes realizações pessoais. Diz o livro dos provérbios: "O que observa a disciplina está no caminho da vida (Pv 10,17). Não se trata aí de uma disciplina opressora, mas de um controle de si mesmo que permite dirigir esforços para um objetivo ditado pela própria liberdade. Como, por exemplo, chegar a ser um grande pianista ou um atleta, sem a disciplina dos exercícios que aprimoram a técnica? Como criar um clima familiar afetuoso e acolhedor se cada um resolver que não precisa se controlar, quando o trato com os demais exige uma certa paciência? Quem despreza a noção de limites para chegar mais depressa ao que deseja é como um rio que rejeitasse as próprias margens: vai se espalhar, virará pântano e perderá o rumo e a força para chegar ao mar. A educação para a compreensão dos limites como força que potencializa e dirige o nosso agir é importante para cada um poder desenvolver melhor seus dons pessoais e alcançar objetivos que valham a pena. "Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma" (1 Cor 6,12). Essa orientação de São Paulo indica um uso importante da liberdade: discernir que limites devemos respeitar para conseguir fazer da nossa vida uma realização mais gratificante e mais digna de nossa identidade de filhos e filhas de Deus.
Hábitos que controlamos e hábitos que nos controlam ""Mais vale quem domina o coração, é dono de si próprio, do que aquele que conquista uma cidade" (Pv 16,32). Não são apenas os dependentes químicos os que podem perder o controle de sua vida, dominados por hábitos que se tornam pesadas cadeias. Todos nós podemos nos deixar controlar, seja pela propaganda, seja pela pressão de grupo, seja pelas próprias válvulas de escape que inventamos para amortecer as dificuldades da vida. Na verdade, quem não se condiciona a si mesmo, por sua própria vontade, ao que quer ser e fazer, é condicionado facilmente pelos outros ao que não quer ser e fazer. Quem de nós não conhece gente que quer emagrecer mas não consegue parar de comer, gente que já nem conversa com a família porque não consegue desviar os olhos da TV ou é escravo da Internet, gente que promete controlar a língua e não resiste na hora de fazer mais um comentário ferino sobre a vida alheia, gente que promete parar de fumar ou beber e não toma os meios? Isso posto, seria bom que cada um de nós se examinasse antes de censurar a incapacidade alheia de resistir a hábitos e vícios. É importante tirar a trave dos próprios olhos, como recomenda Jesus (cf. Mt 7,3; Lc 6,41). Provavelmente teremos, nós também, alguns hábitos e tendências que encontramos dificuldade em dominar. Isso não deve servir para nos acomodar diante da situação, mas pode nos conduzir a uma postura mais humilde e caridosa diante de quem, por ter perdido o controle de algum hábito, está pondo em risco a sua felicidade ou a sua vida. Para refletir Estamos sabendo apresentar as leis de Deus e os valores do Evangelho como ajuda para indicar um uso construtivo da liberdade humana? Educamos para a valorização dos limites que nos permitem crescer e ser mais, conviver no amor? Temos hábitos difíceis de abandonar? Como lidamos com eles?
A força da fé nas situações de dor Na vida de cada um, inevitavelmente, haverá momentos dolorosos, inquietações, medos, inseguranças geradoras de angústia. Temos problemas pessoais e problemas gerados pelo panorama social em que vivemos; o social e o pessoal têm implicações mútuas, e sabemos que a situação sócio-política e cultural contribui direta e indiretamente para que muitos vivam num clima de permanente ansiedade e medo da vida. A sabedoria de viver se mede muito pela capacidade de lidar com as pequenas e grandes aflições do cotidiano. A fé religiosa ajuda muito. Quando Jesus recomenda "Não andeis inquietos com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas próprias preocupações, basta para cada dia a sua própria dificuldade" (cf. Mt 6, 34), ele está convidando a uma confiança maior no poder de Deus, em cujas mãos estamos todos nós. Jesus mesmo se apresenta como alguém capaz de aliviar nossas angústias: "Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso do fardo e eu vos darei descanso"(Mt 11, 28). Ele não vai fazer nenhum tipo de mágica para os problemas desaparecerem, mas tem uma paz profunda a oferecer. Com essa pacificação de coração baseada na confiança em Deus, podemos mais e enfrentamos melhor os tropeços. É também isso que São Paulo quer dizer quando afirma que "todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus"(Rm 8, 28). Não é um seguro contra problemas nem é uma garantia de que Deus vai fazer favores especiais a seus protegidos. É uma afirmação do poder da fé como força e critério de ação e julgamento diante das dificuldades. Afinal, o que conta não é tanto o que nos acontece, mas o que somos capazes de fazer com o que nos acontece. A fé potencializa nossos dons.
A vida e suas possibilidades valem mais que a ilusão das drogas Em seu artigo "Drogas na escola", Lídia Rosemberg Aratangy, recomenda "combater o vício das drogas, mas sem inibir essa preciosa inquietação que leva o homem a buscar conhecer sempre mais". Em outras palavras, é preciso propor alternativas emocionantes, gratificantes. A própria fé é para ser vivida com a alegria de quem descobre um sentido para a vida e proclama que viver é uma aventura capaz de grandes emoções. Sobre essa necessidade de buscar propostas empolgantes para construir um projeto de vida, diz o psicanalista Renato Mezan: "…sou quem amei; sou o que fiz de meus modelos, sou quem incorporei na voracidade absoluta de conter em mim o mundo". Santo Agostinho diz isso de outra maneira: "Nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti". De um modo ou de outro, o que se afirma é que o ser humano anda em busca de algo que dê sabor, propósito e entusiasmo à vida. Muitas vezes pensa que encontrou, mas logo fica insatisfeito e parte para outra: isso é, também, um sinal da sua fome de infinito. Somos anunciadores do Infinito de Deus: cabe-nos fazer isso de forma convincente, com toda a fascinante beleza do chamado de Deus, sem fazer da religião uma coleção desanimadora de regras cujo sentido a pessoa não percebe. São Paulo, que encontrou em algumas comunidades do início do cristianismo, pessoas que se deixavam levar por vícios, reagiu. Percebeu que elas precisavam ocupar-se com atividades sadias, que lhes causassem prazer interior, alegria. Suas admoestações são diretas e, ao pedir que essas pessoas deixem o vício, estimula-as a terem um comportamento que preencha a vida de alegria. Diz São Paulo: "Estejam atentos para a maneira como vocês vivem: não vivam como tolos, mas como sensatos, aproveitando o tempo presente, porque os dias são maus. Não se embriaguem, pois isso leva para a libertinagem. Busquem antes a plenitude do Espírito. Juntos recitem salmos, hinos e cânticos inspirados, cantando e louvando ao Senhor de todo o coração..." (Ef 5, 15-19).
Vida sim! Morte não! A vida é um bem tão precioso que a grande promessa de Jesus é que ela será eterna, porque o nosso Deus é o Deus da Vida. Esse Deus da Vida quer também vida, a mais feliz possível, já, aqui e agora, não só depois da morte. Trata-se de vida com sabor de céu, mesmo no meio das dificuldades, vida de quem sabe por que e para que está vivo. Essa seria a primeira função da educação da fé: ajudar a construir mais vida, com sentido. A pessoa que tem fé deve ser capaz de acordar todos os dias com a sensação de estar fazendo parte de um grande milagre: "O fornecimento do tempo é um milagre cotidiano. Acordas pela manhã e vê! Tua bolsa está magicamente cheia com 24 horas desse tecido ainda não manufaturado do universo da vida, a mais preciosa de tuas posses!" (Arnold Bennet) No Evangelho segundo São João, Jesus nos diz que quem nele crê tem a vida eterna. Não diz "terá"; fala no presente. Trata-se também desta vida mesmo, daqui da terra, vivida no clima de Deus, cheia de um novo sentido. E quem vive neste clima da construção do Reino achará emocionantes as oportunidades do cotidiano, carregadas de apelos a um crescimento que é programa empolgante. Escreve São Paulo: "Como escolhidos de Deus, santos, amados, vistam-se de sentimentos de compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência. Suportem-se uns aos outros e se perdoem mutuamente, sempre que tiverem queixa contra alguém. E acima de tudo vistam-se com o amor que é o laço da perfeição"(Col 3, 12-14). Isto é viver na luz, e ele acrescenta: "O fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade"(Ef 5, 9). Vida com sentido é, portanto, uma excelente prevenção contra todo tipo de vício, tanto as drogas como outras formas destrutivas de enfrentar os problemas diários. Para refletir Vivemos com alegria a esperança que brota da fé? Nossa comunidade transmite essa alegria?
O amor, que traz felicidade, tem suas exigências O dependente de algum vício, entre os quais a dependência química, costuma ter muitos sintomas semelhantes ao do chamado fenômeno de "adolescência prolongada", caracterizada por pouca disposição em assumir responsabilidades. A psicologia diria que ele tem dificuldades em passar do princípio do prazer ao princípio da realidade; com isso, não cresce e deixa de desenvolver importantes capacidades construtivas. Um amor verdadeiro não se conforma com essa situação, muito menos a alimenta, e faz de tudo para que a pessoa se liberte dessa terrível prisão. O amor de Deus também não fabrica crianças mimadas, nem faz por nós o que Ele mesmo nos deu capacidade para fazer. O amor do Pai sabe temperar acolhimento, perdão, braços sempre abertos, com apelos exigentes para que cada um seja tão bom, tão grande e tão feliz como estava no seu sonho inicial, ao criar cada um como pessoa de grande valor. Assim agiu Jesus que, ao mesmo tempo em que era terno, acolhedor e compassivo com sofredores, humildes e pecadores, fazia propostas exigentes aos que se propunham a seguí-lo e era contundente contra os que prejudicavam os outros, bem como a convivência fraterna e justa. Não é inteligente fazer abatimentos, descontos, quando se trata da qualidade da nossa própria vida. Será uma lástima se cada um de nós não se construir, de fato, da melhor forma possível. "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" - o verso famoso de Fernando Pessoa indica uma direção. Qualquer esforço vale a pena para fazer frutificar o grande ser humano que cada um de nós já é e poderá ser ainda mais. São Paulo, face à nossa fragilidade psico-espiritual, insiste para que nos exercitemos com vistas a nos tornarmos fortes contra as armadilhas do mal que surgem em nossa caminhada: "Fortaleçam-se no Senhor e na força de seu poder"(Ef 6, 10). Nos versículos seguintes, ele nos pede para vestirmos a armadura de Deus, a fim de resistirmos às manobras do mal, permanecermos firmes, superando todas as provas (cf. Ef. 6, 11-17). Mas, se caímos, ele, além de nos provocar à mudança de vida, deixando o mal, é propositivo, incentivando, estimulando-nos a fazer o bem: "deixem de viver como viviam antes, como homem velho que se corrompe com paixões enganadoras. É preciso que se renovem pela transformação espiritual da inteligência e se revistam do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e na santidade que vem da verdade... Afastem de vocês qualquer aspereza, desdém, raiva, gritaria, insulto, e todo tipo de maldade. Sejam bons e compreensivos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, como Deus perdoou vocês em Cristo" (Ef 4, 22-24, 31-32).
Ocupação sadia e alegria de servir "Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver", dizia D. Helder Câmara. As razões para viver se percebem mais facilmente quando a pessoa se coloca a serviço. Muitos são os testemunhos de gente que se dispôs a ajudar outros, por compaixão, e acabou se descobrindo como o beneficiário primeiro do serviço que lhes estava generosamente oferecendo. Jesus convida a servir, falando da recompensa que vem do céu: "…quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir; mas ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos" (Lc 14,13-14). Antes mesmo da ressurreição dos justos, há uma alegria muito especial em prestar serviços que não podem ser retribuídos de modo material. Mas sabemos que sempre há um tipo de retribuição: todos têm algo a oferecer, mesmo os mais carentes. Essa alegria funciona tanto para aqueles(as) que se colocam a serviço dos dependentes de drogas como para as próprias vítimas dessa dependência. Ambos se sentem mais felizes quando descobrem que podem ser úteis. Ocupar-se generosamente de outros é boa receita para obter uma atitude mais positiva em relação aos próprios problemas. O serviço, na tônica do amor gratuito, ajuda a tomar uma certa distância dos problemas pessoais, e essa distância faz com que os vejamos em nova perspectiva. Vem do serviço fraterno uma alegria que conduz a novos e mais luminosos caminhos.
Cristãos, chamados a fazer diferença Saber que a nossa presença fez alguma diferença para melhor neste mundo conturbado é uma das melhores sensações que uma pessoa pode experimentar. Há mães que escrevem naqueles famosos álbuns de bebê, respondendo à pergunta sobre o que desejam para a criança recém-nascida: que o mundo fique um pouco melhor porque ela existe. É um modo bonito de afirmar que sabem para que serve a vida que acabou de vir ao mundo. A emoção de perceber que algo que realizamos fez diferença anima a construir cada vez mais e melhor, coloca-nos com alegria numa estrada bem iluminada pela satisfação de ser gente, de existir, de amar e ser amado. Essa alegria é vivenciada por aqueles(as) que se dedicam à recuperação de dependentes de drogas ou a outras tarefas transformadoras. E deve tornar-se também progressivamente uma alegria, de grande potencial salvador, para a pessoa que precisa de recuperação. Nessa tarefa de fazer diferença não estamos sozinhos. Deus, que fez o chamado, vai junto como parceiro, força e estímulo. Ele mesmo o garante: "Não temas, eu estou contigo" (Is 43, 5; Jr 1, 8). No dizer de Fernando Pessoa: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Deus quer, o homem sonha, a obra nasce".Para refletir Como educamos crianças e jovens para a alegria do serviço prestado com generosidade e responsabilidade? A comunidade se une para responder às necessidades da realidade local? Como?
Um amor sem exclusões Jesus avisa que a vontade do Pai é "que não se perca um só destes pequeninos" (Mt 18,14). Somos uma grande família, na qual todos são responsáveis por todos. Nosso próximo é aquele de quem nos tornamos próximos, como se vê na parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 30-37). A condição para o outro ter direito a ser esse tipo de "próximo" não é o parentesco, nem a filiação religiosa, nem as virtudes da pessoa envolvida, nem a afinidade emocional. O grande critério para mobilizar a nossa fraterna atenção é a própria necessidade do(a) irmão(ã). Se alguma prioridade devemos dar a alguém em nossa caridade fraterna, o grande critério haverá de ser a necessidade de quem precisa de nós. Ou, como disse Jesus: "Não são aqueles que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes" (Mc 2,17). Esse apelo à solidariedade sem exclusões deve mobilizar pessoas e comunidades cristãs diante dos sofrimentos dos dependentes químicos e dependentes de qualquer outra situação e, também, diante dos sofrimentos de suas famílias, sem julgamentos preconceituosos e sem outras cobranças que não sejam as exigência da própria reeducação dos que precisam se recuperar. Às vezes nos comportamos como se os problemas alheios fossem coisas muito distantes de nós. Com isso, perdemos a oportunidade de viver a experiência gratificante da generosidade fraterna, e perdem aqueles que precisam do nosso apoio para viver melhor. Poderíamos refletir com o poeta Mário Quintana: "Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho…". Na parábola do Bom Samaritano, Jesus destaca que exatamente o excluído pelos judeus - pois eles não aceitavam os samaritanos -, é que se tornou modelo de caridade e de proximidade do outro, caído à beira da estrada, de quem tanto o sacerdote como o levita não cuidaram. O Bom Samaritano, mesmo sem o saber, está fazendo a um desconhecido, tratado como irmão, o benefício que Jesus julgará, no Juizo Final, como feito a si mesmo: "todas as vezes que isto fizestes a um de meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizeste" (Mt 40).
A Igreja se põe a serviço da vida e da esperança Somos Igreja a serviço do evangelho da vida, vida a ser desenvolvida com dignidade, alegria, paz. Vivemos, como cristãos mergulhados na realidade deste mundo cheio de ambigüidades, de contrastes imensos, entre felicidade e infelicidade. Sabemos que "as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias de todos os homens, especialmente as dos pobres e daqueles que sofrem, são as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo" (GS 1). Toca-nos, portanto, o coração o sofrimento da multidão de irmãos(ãs) nossos(as), de suas famílias e da sociedade que sofre com tantos problemas e injustiças, e, neste complexo contexto, dos que carregam consigo as conseqüências violentas do mercado da droga. Pela palavra do Papa João Paulo II, a Igreja é convocada a se engajar na luta por um mundo livre, também da tragédia da droga, compreendendo suas causas e indo à raiz do problema, situando a questão da droga num universo mais amplo, no qual é gerada e alimentada: "O flagelo das drogas não seria, em essência, o mal a ser combatido ou, pelo menos, o único a ser combatido. Ele seria muito mais o efeito de outro mal, maior e mais grave: a perda do sentido da vida. Daí a ênfase na recuperação e prática dos valores básicos da virtude cristã e a denúncia dos comportamentos e atitudes contrários à preservação da vida, à solidariedade e amor ao próximo, justiça etc…"; "É necessário denunciar com coragem e com força o hedonismo, o materialismo e aquele estilo de vida que facilmente induzem à droga (João Paulo II, Ecclesia in America, 60 e 61).
Procurar parceria para servir a vida e a esperança Não somos, os católicos, os únicos a estendermos as mãos e abrirmos o coração aos que se perderam no caminho da droga. Quando se trata de fazer o bem, todas as pessoas sensíveis à dor alheia são chamadas ao mesmo mutirão. Reconhecemos e valorizamos o empenho de outros grupos, profissionais e organizações dedicados à recuperação dos irmãos necessitados. Aprender uns com os outros e saber conjugar dons complementares são mostras de inteligência solidária e caminho para um resultado melhor. Vemos com especial alegria o trabalho realizado por outras Igrejas cristãs, nossas irmãs na fé, que têm importante ação nessa área. Jesus estimula o apoio de seus discípulos a todos os que fazem o bem: "Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue. Jesus disse: "Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor" (Mc 9, 40). Isso quer dizer que toda ação que liberta a pessoa humana faz parte da missão de Jesus e merece todo o apoio dos que o seguem. Felizes, portanto, por tudo que for realizado em benefício de quem precisa, seguiremos o conselho de Paulo aos cristãos de Filipos: "Nada façais por competição ou vanglória, mas por humildade; considerai os outros superiores a vós mesmos. Cada um procure, não o próprio interesse mas o interesse dos outros. Tende os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo" (Fl 2,3-4).
O Evangelho do amor que liberta, transforma, faz crescer Nosso Deus escolheu o Amor como meio de salvação do mundo. Diante dos sofrimentos e descaminhos humanos, conseqüências do pecado, respondeu com uma doação maior. E a entrega total da vida de Jesus nos proclama: só o Amor salva! Essa abertura ao Amor é a grande força transformadora do mundo. Transforma o dependente de qualquer substância ou situação, que, sabendo-se amado por Deus e pelos irmãos, tem motivos a mais para se libertar e buscar outro caminho, que de fato conduz à felicidade. Transforma o agente que se envolve na sua recuperação, fazendo dele uma pessoa melhor. Transforma a sociedade, questionada por essa generosidade sem interesses ocultos, que vai na contramão das pressões consumistas e competitivas. Se o problema parecer grande demais para nossas forças, lembremos a imagem do grão de mostarda, a mais pequenina das sementes, que a força da vida, alimentada por Deus, transforma em grande árvore (cf. Mt 13, 31-32). Jesus prometeu: "quem permanecer em mim e eu nele dará muito fruto" (Jo 15,5). Os frutos do amor, da caridade e do serviço, partilhados com os dependentes e suas famílias, serão um sinal de esperança, parte indispensável do anúncio do Reino, que é a própria razão de ser da Igreja de Jesus. E mesmo que não consigamos recuperar alguém, o importante é que cumprimos nossa parte, fizemos o que estava ao nosso alcance, expressamos nosso amor, fizemos a pessoa afetada sentir-se amada, fomos para ela sacramento do amor misericordioso do Senhor. O filme "Os últimos passos de um homem" elucida isso muito bem, retratando a dedicação à toda prova de uma religiosa a um condenado à morte. Quando o amor toma conta das pessoas, há um total redimensionamento das relações humanas e da maneira de encarar os problemas. Um missionário, vendo o menino pobre carregar nas costas outro menino, até um pouco maior, lhe diz: "Caramba, deve estar pesando muito! Vou te ajudar!". E o menino, sentindo sim o peso, mas com uma força especial que tem, responde: "Não Padre, não precisa! Não pesa, não! É meu irmão!" Temos na história recente, exemplos heróicos gritantes, que nos estimulam no serviço ao excluído social mais esmagado. É o caso, apenas para citar dois deles, de Madre Teresa de Calcutá e de Irmã Dulce. A CF 2001, "Vida sim! Drogas Não!", nos leva a divulgar esses e outros heróis, cristãos e não cristãos, como mensagem profética de Deus para a Igreja hoje, em sua opção preferencial pelos pobres, chamada a dar maior atenção, de modo dedicado e competente aos portadores de alguma deficiência, aos discriminados por raça, sexo, cultura, religião, enfermidades estigamizadoras etc. Os dependentes químicos ou de qualquer outro estimulador que vicia e corrói a vida são, entre outros, alertas diretos e muito específicos do Senhor à caridade libertadora de seus seguidores e que, certamente, poderão ser incluídos no relato de situações arroladas por Jesus, no Juízo Final: "Pode vir para o Reino de meu Pai, porque eu era dependente e você cuidou de mim!" ou "Afaste-se de mim, maldito, porque eu era dependente e você não cuidou de mim!" (cf. Mt 25, 31-46). Para refletir Fazer um levantamento de grupos e organizações que já trabalham na recuperação de dependentes químicos. Desses, quais são de nossa Igreja? Como podemos apoiar, colaborar? Há exclusões, preconceitos e outras dificuldades que podem atrapalhar esse trabalho?
O Agir da Campanha da Fraternidade, neste primeiro ano do novo milênio, propõe ações que visam à construção de um milênio sem drogas. A proposta se enquadra num contexto mais amplo e tem por objetivo último colaborar na realização de um novo projeto de vida e sociedade, que, além de questionar a estrutura social, econômica e política, de crescente consumismo, gerador de novos tipos de necessidades e dependências, deseja mobilizar a todos para ações concretas, que coloquem as bases de uma sociedade justa e solidária. Estamos convencidos de que esse tipo de sociedade reforça o sentido positivo da vida, não permite a exclusão social de ninguém e, assim, encontra caminhos eficazes para solucionar o grande flagelo das drogas. Trata-se de um Agir que, diante dos três agentes que atuam nessa problemática, droga, ser humano e ambiente, prioriza o ser humano, definido como pessoa. O Agir Cristão desenvolve-se como Projeto Evangélico em sintonia com as "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (1999-2002)" e com o Projeto Evangelizador "Ser Igreja no Novo Milênio (2001-2002)". Sem ignorar nem desprestigiar qualquer trabalho neste campo, a Campanha da Fraternidade quer intervir na realidade reconhecendo que a droga não é o principal problema do toxicodependente e, sim, a falta de sentido positivo da vida. Embora as propostas de ação elencadas neste texto priorizem respostas a situações de dependência química, não podemos perder de vista outras situações similares e, sobretudo, o panorama mais amplo. As ações que forem sendo assumidas no Agir devem ser resultado de uma reflexão ampla que vai do âmbito pessoal às políticas públicas. Reflexão que passa pela exigência de mudança de posturas pessoais, com gestos de resistência à mentalidade consumista, até a transformação de estruturas marcadas por uma economia de mercado que visa mais ao lucro do que a qualidade de vida das pessoas e da sociedade. A exemplo de atividades realizadas em outras Campanhas da Fraternidade, o Agir da CF 2001 tem vários níveis: da assistência (socorro imediato), da promoção humana (que busca o desenvolvimento da dignidade humana, a autonomia das pessoas), do engajamento libertador (na |